Monday, July 8, 2013

Emotions: An oversensitive girl

Faced with a moment of dealing with
 emotions,  a mature woman revisits her ghosts of the past.

     Since I was little I knew, and everybody pointed out too, that I was an oversensitive girl. As they say in Brazil, manteiga derretida (melted butter), someone who tends to cry more than would be appropriate. This, let’s say, feature of my personality, persisted and it was still remarkable when I was in college. Just to give a sense of it, many years after graduation I met former colleagues and more than one person had vivid memories of my interferences in class almost always under an emotional tone, according to them on the verge of tears. That was not exactly the memory I wished to leave for posterity.
     The situation was such that during my twenties, just after college, as a young journalist, I decided to look for professional help. I became a Jungian psychotherapy patient for the first time. After only one year, no kidding, I was much better. It is not that I stopped crying for good, but I was able to control my emotions as I had never done before. I do not plan to advertise Jung’s methods nor discuss my treatment or the opinions of my psychotherapist about my case. Although, I recognize, her intervention was key into my process of “cure.” I just can say that, unconsciously, I was using my tears as a mechanism of defense. Without noticing, crying was the only way I knew in order to win my battles and, of course, I was not actually winning anything. In the past years, I realized that I cried more and more for happy reasons and, believe me, if you haven’t already found it yourself, tears of joy are the best ones.
     All this past struggle as well as my conquests came to my mind again, recently, particularly in my last week as a Lecturer of Portuguese at the university I worked for seven years.  Starting in my first year there, having little support from the institution, I relied a lot on my relationships with my students. While in conflict with the idea of teaching “only” language when I had gone to grad school to learn and eventually teach literature, I realized that even under these circumstances I could reach my students and the response was encouraging. In other words, even as a language teacher I found that, pedagogically, there was much more I could do. First of all, I understood that the only way of making my teaching productive and interesting to my students was to believe this was possible. I could not convince my audience of the relevance of my work without believing it myself. Plus, knowing who I am, no matter how much training and research I could do, the only way to be genuine and authentic in my teaching was allowing passion into the work. Yeah, now it was time to honor my emotions in a healthy way.
     During my seven years teaching Portuguese as the sole faculty member in my discipline, there were many days in which my whole “Jungian treatment” was put to test. Frustration and feelings of inadequacy and low self esteem would occasionally cloud my views. However, every single year I would find a group of students that would challenge me, delight me, and make me feel like the most important person in the world. Still, in my worst professional crisis, I would sometimes forget the importance of their support. Now, when I had to finally say goodbye, they reminded me of their amazing role in getting me enthusiastic about this work, even when faced with lots of disappointment. They also made me reframe some concepts. After all, being an extremely emotional person can offer good and bad things. The insecure, crying little girl that lives inside me was suddenly awake.  I was faced once more with the awkward moment of saying good bye. In their powerful message, my beloved students made real the feeling of leaving behind a group of young people, who were part of my life and the fear of not repeating the same rapport with the students I will meet next fall.  But that is not all and it is not even the most important  realization. Through their surprise parties, chocolates, flowers, cupcakes, hugs, cards with the sweetest words and songs, they brought me back to the beginning in a remarkable way: they reminded me why I chose this path in first place. It is my goal now more than ever to keep transforming my everyday teaching into something that goes beyond Portuguese. My only way to say thanks to all of them is to make my love of teaching transparent in my pedagogy. Did not Paulo Freire tell us about the joy of teaching?
     I wish I can feed on this good energy to find other groups of students as loving, curious and rewarding in the new moment of my career ahead of me.  My students, recent and past, have taught me that I should use my sensibility as a strength to share and celebrate education and the love of learning. And now, you’ll just have to forgive me if I cry. 


Sunday, March 17, 2013

Crônicas de bibliotecas

Por um Brasil de leitores!


St Louis Central Library. Recentemente reformada, a biblioteca central de Saint Louis é talvez a mais bonita dentre as muitas bibliotecas espalhadas pela cidade.  É um espaço convidativo e acessível. Foto: Derek Pardue

 



Moro nos EUA há muitos anos e uma das coisas mais legais que já vi aqui é o sistema de bibliotecas públicas. É absolutamente maravilhoso e , lamentavelmente, ao contrário de outras ideias americanas, esta nunca foi amplamente copiada pelo Brasil. Em 2009, a Fundação Getúlio Vargas fez um censo de bibliotecas municipais no país. A pesquisa foi encomendada pelo Ministério da Cultura. Os resultados saíram no ano seguinte e não foram muito animadores. Apurou-se , por exemplo, que 445 municípios brasileiros (8% do total) não tinham bibliotecas públicas. As bibliotecas em funcionamento geralmente não ofereciam outros serviços, ou seja, não promoviam atividades com os leitores nem mesmo grupos de leitura e poucas ofereciam acesso à internet. Mais de 90% delas eram inadequadas para deficientes físicos e/ou visuais. A maioria também fechava aos finais de semana e os horários de atedimento ao público, em geral, inviabilizavam o acesso dos que trabalham em tempo integral.
No mesmo ano, 2010, o Ministério da  Cultura lançou um edital convidando os municípios a se candidatarem a kits de modernização das bibliotecas. Cerca de 200 projetos foram selecionados e agora é hora de se saber como essas políticas de incentivo têm evoluído e como cada município tem tirado vantagem delas, eficazmente.
A criação dos Pontos de Leitura é outra iniciativa interessante e necessária. Grupos como sindicatos, centros comunitários e outros espaços públicos concorrem a verbas federais e infra-estrutura básica, incluindo um acervo inicial de livros de diferentes categorias. Depois de ter bibliotecas em cada município, o ideal seria garantir acesso ao maior número de leitores e transformar esses espaços em parte integrante das comunidades. E que sejam lugares bonitos, acolhedores, dinâmicos.
Eu quero ter esperança. Afinal,  a situação na pátria amada, idolatrada ainda é ruim mas não é novidade. Muitíssimos anos atrás, quando eu era adolescente, tirava livros religiosamente de uma circulante municipal. Eu tinha de renovar ou devolver os livros a cada duas semanas e tentava ler o mais rápido que podia para constantemente ter livros diferentes em mãos.  Um dia, porém, fui informada que houve reformulação dos distritos e com isso eu ficava proibida de continuar retirando livros daquela biblioteca. Há de se notar que a dita biblioteca não ficava no meu bairro. Eu tinha de fazer uma viagem de ônibus de cerca de 25 minutos. Com a tal reestruturação fui encaminhada para uma biblioteca que, apesar de pertencer à minha área, era impraticável. Era totalmente fora de mão: eu teria de tomar dois ônbus e, mais grave, aparentemente acreditava-se que minha jurisdição não tinha muitos leitores porque a biblioteca que nos cabia mal tinha livros e o parco acervo era composto de títulos infantis: uma ofensa para uma adolescente que se julgava tão madura, pelo menos como leitora.Mais recentemente ,lembro de lido que o então prefeito, Kassab, planejava fechar esta mesma biblioteca por falta de leitores (comentei o episódio neste blog).
Voltando ao meu drama adoelscente, não adiantou nada literalmente chorar diante de uma bibliotecária cuja apatia só era superada pelo incrível pendor à burocracia. Eu tinha sido oficialmente excluída. Foi então que pela primeira vez me servi do jeitinho brasileiro, neste caso, felizmente, sem graves consequências para ninguém e com benefícios (temporários) a minha sede de livros. À época, eu tinha um namorado que lia tanto quanto eu e que morava perto da bilbioteca. Ele tinha um irmão que, por sorte (minha não dele), não ligava para livros. Assim não foi difícil convencê-lo a obter uma carteirinha da bilbioteca e gentilmente me permitir usá-la em seu lugar. O acordo durou pelo tempo do namoro, que não foi longo, mas adiou a necessidade de comprar livros por mais um tempo.
Poucos anos depois, já na faculdade, outro evento ligado a bibliotecas me fez pensar na pouca importância que damos a elas no Brasil. Eu estava num desses cursos de ciências sociais com nome complicado. O professor era alguém da USP e embora tivesse boa reputação intelectual era uma dessas figuras antipáticas, caricatura do acadêmico esnobe. Numa das aulas dele, no meu primeiro ano de Jornalismo, quando ele falava sobre  a bibliografia do curso, levantei a mão e perguntei quais eram as opções para quem não pudesse comprar os livros. Inocentemente eu esperava algo como a dica de uma loja de livros usados ou, (por que não?) ser informada sobre os recursos da nossa biblioteca universitária. Em vez disso, Dr. X  foi categórico: “Quem não tem dinheiro para a gasolina não deve comprar carro”. Engoli a metáfora indigesta. Mas sabia que era preciso mais do que uma tirada infeliz pra me fazer desistir. E continuei tocando o carro, mesmo que, às vezes, aos empurrões. Valeu a pena, Dr. X.
Eu me lembrei deste episódio, em 1999, no primeiro ano da pós-graduação em Illinois. Eu me preparava para escrever os trabalhos finais cercada por dezenas de livros emprestados da biblioteca da universidade (tenho uma foto com eles e espero um dia encontrá-la). Eu me sentia como uma criança que realiza o sonho de ter  uma casa cheia de doces. A sensação só era mais intensa quando eu me via nos corredores da própria biblioteca, escolhendo livros das numerosas prateleiras e me deliciando em simplesmente folhear tantos exemplares quanto possível.

Que na nossa corrida para o desenvolvimento a gente crie e equipe muitas bibliotecas. Quem sabe um dia a principal manchete de todos os jornais nos dê conta de que, sim, o Brasil é um país que lê!  E que
não por acaso tem um sistema maravilhoso de bibliotecas públicas.

Monday, December 10, 2012

Quixotes e pixotes


 Diminuição da maioridade penal, sistema prisional e o Projeto Trilhas, 
da Associação Horizontes


Eu tenho um filho de 8 anos. Ele nunca experimentou fome, porque eu ou o pai dele, meu marido, estamos atentos às necessidades que ele tem desde o dia em que ele foi concebido. Ele só sente frio quando teima em sair no inverno sem jaqueta. Mas talvez teime porque saiba que um dos pais vai estar por perto com um casaco quentinho à espera de que ele resolva vesti-lo. Cada vez que sentimos que ele tem um problema na escola, imediatamente entramos em contato com os professores e ao menor sinal de um resfriado mais forte ligamos para a pediatra. Ele nunca teve uma cárie, porque cuidamos dos dentinhos dele desde que surgiram.  Sofreu uma única infecção de ouvido que foi prontamente tratada com o mínimo possível de antibióticos para não desequilibrar seu frágil organismo. Ele é inteligente, sadio, confiante. Ele aprende piano e canta no coral infantil da cidade.  Nossa família não reza nem vai a igreja, mas nosso filho tem um profundo sentimento de respeito pela natureza, pelos animais e por seus semelhantes. É nosso compromisso provê-lo com uma base moral consistente, assim tentamos ser modelo de tudo o que  ensinamos e quando, por algum motivo, erramos, nos desculpamos e mostramos para André que erros acontecem e que pedir e aceitar perdão faz parte da convivência em sociedade. Mesmo com todos os cuidados, nem sempre ele diz obrigado ou por favor, embora em geral tenha boas maneiras. Expandindo essa ideia, imagino que no futuro, quando puder escolher, ele possa, apesar de todos os nossos esforços, fazer más escolhas. Talvez ele se esqueça do que aprendeu, talvez ele se rebele contra nossa forma de educar... Sei lá, é a lei do livre arbítrio e tudo pode acontecer.  O que sei é que quero que ele estude, se eduque, viaje, tente compreender o mundo e seja uma pessoa feliz, um cidadão participante, um ser humano decente.
Difícil mesmo é imaginar como uma criança que foi indesejada, que cresceu sofrendo coisas que nem gente grande está preparada para suportar, num ambiente de violência e privada de cuidados básicos pode se transformar em um adulto saudável e bem integrado ao meio social. Eu estudei um bocado nesta vida mas nunca aprendi muito sobre psicologia, pelo menos não no sentido acadêmico da palavra. Ainda assim, me parece óbvio que uma criança submetida a maus tratos e a desrespeito de todo tipo, que não tenha sequer se alimentado propriamente,  tenha poucas chances de seguir um “bom caminho”.  Isso já é suficiente para me convencer de que mandar um menino delinquente para uma prisão adulta aos 16 anos não vai resolver o problema dele e menos ainda reverter o quadro de violência que assola o Brasil. Ao contrário, vai piorar um sistema prisional já sobrecarregado e corrompido. Um estudo de 2007 dá conta que 90% dos detentos voltam a delinquir e acabam regressando à prisão. Esse dado sozinho mostra a ineficácia alarmante do nosso sistema penitenciário. Dados do mesmo estudo apontam que 95% dos que hoje povoam as prisões são de classes pobres,excluídos sociais, analfabetos ou com baixo nível de instrução. Há um número imenso de presos que aguarda benefícios judiciais a que têm direito, como prisão semi-aberta. Outros estão depositados em distritos policiais sem nenhuma estrutura para recebê-los.  Um dos últimos censos penitenciários revelou que  40% de todos os prisioneiros, sentenciados ou não, estão sob guarda da polícia civil, ou seja, profissionais não treinados para o serviço carcerário, nos DPs da vida.  A transferência desses detentos é prorrogada e em muitos casos jamais concretizada, por falta de leitos nas penitenciárias. Cerca de 20% de todos os prisioneiros  são portadores do vírus da Aids. Revista CEJ  (Rafael Damaceno de Assis, Revista CEJ, Brasília, Ano XI, n. 39, p. 74-78, out./dez. 2007).
Esses números não são os mais recentes , mas duvido que a situação tenha melhorado significativamente nos últimos cinco anos. Os acontecimentos das últimas semanas em São Paulo, em que o crime organizado age de dentro das prisões, nas barbas do poder público estadual e com a sua conivência, apenas atualizam a gravidade e o horror dessa realidade. Parece absurdo imaginar que este sistema carcerário falido possa receber um contingente extra de sentenciados na faixa etária de 16 a 18.  Se isso vier a acontecer, obviamente o caos tende a se expandir e, ainda mais evidente, é a certeza de que qualquer recuperação vai ser vetada a esses adolescentes.
É intrigante como as pessoas, mesmo aquelas razoavelmente bem informadas, tendem a se apegar a explicações simplistas para justificar suas posições diante de questões complexas. É comum, por exemplo, ouvir que a alteração da idade penal intimidaria os jovens criminosos porque  eles pensariam duas vezes antes de um ato ilegal, sabendo que seriam julgados como adultos. Argumento  semelhante aqui nos Estados Unidos, dos partidários da pena de morte, ignora estudos apontando que não há relação comprovada entre a diminuição de crimes violentos nos estados que  executam seus criminosos. Duvido que meninos ou meninas sem estrutura, que sofrem abusos de todo tipo e sem nenhum exemplo de conduta vão deixar de cometer um crime por ponderar  suas consequências legais. Outra ideia batida é a que os adultos deixariam de usar menores  em seus crimes se eles não fossem legalmente tratados  como menores. De fato, não creio que os exploradores de menores estejam preocupados em poupá-los da prisão ou da punição.
Infelizmente,essa lógica passa a prevalecer sobre medidas mais profundas e de múltiplos níveis de abrangência, como por exemplo a necessidade da pressão da sociedade civil organizada sobre  o governo, em todos os níveis, exigindo educação inclusiva e de qualidade e a ação efetiva contra o desfacelamento do núcleo familiar , com a criação de mais programas e atividades para depois do período escolar e de mais espaços públicos seguros na área metropolitana e nos bairros pobres das grandes cidades. Em vez de acoes preventivas e de acompanhamento o que se busca é que o poder público se ocupe  em encarcerar mais jovens, que serão devolvidos às ruas ainda mais violentos.
Em um dos meus contos favoritos de Machado de Assis, “Ideias de Canário”, um canário falante só é capaz de reconhecer o ambiente que o cerca no momento presente. Ele não se lembra dos lugares onde viveu antes e imagina que o mundo não vá além de seu campo de visão. O canário alienado de Machado servia como metáfora para uma outra época e outros problemas, mas como a maioria do que Machado escreveu ainda é curiosamente contemporâneo.  É mais do que hora de a sociedade brasileira passar a enxergar além do muro do seu próprio condomínio, que vai ficando cada vez mais alto e ineficiente, porque o que acontece do lado de fora também é responsabilidade nossa.
Não creio que imaginar uma sociedade em que todas as crianças, como meu filho, tenham direito e acesso a comida, segurança, carinho, proteção integral, física e psicológica, seja quixotesco. Nossos moinhos de vento são tragédias pessoais e comunitárias bem palpáveis. Irreal é acreditar , mais uma vez, que uma medida legal vá convenientemente abolir o problema do menor abandonado.

Horizontes
Mas falando em Quixote, eu por minha vez respeito e admiro esses “quixotes”, profissionais e voluntários, que longe de se iludirem com simplificações criam estratégias de ação social e trabalham por soluções. Entre eles, quero destacar  a Associação Horizontes http://www.ah.org.br/,  uma organização sem fins lucrativos com sede em São Paulo. Eu tomei conhecimento do trabalho desta ONG por meio de minha amiga Heloísa Sousa Dantas, coordenadora de projetos dessa organização e, conhecendo a  Helô,  sabia de cara que o projeto é sério. No dia 14 de dezembro a Horizontes vai promover um bazar, por meio de seu projeto Trilhas, que objetiva levantar fundos para projetos voltados a esses jovens que precisam de apoio efetivo para encontrar um lugar na sociedade. Para que possam, em última instância, levarem vidas produtivas e felizes. Faço um apelo aos que têm espírito natalino ou não a assistirem o vídeo da Horizontes/Trilhas http://www.youtube.com/watch?v=5DCYhM11ZTo e se engajarem  seja contribuindo com dinheiro ( o site diz como se pode doar), com produtos para o bazar ou com a divulgação do trabalho da Horizontes. O primeiro passo é reagir contra a inércia do senso comum, que prefere crer, como o canário machadiano, que ao retirar um problema de seu campo de visão, este automaticamente deixa de existir.

Thursday, November 8, 2012

Amigos...de novo e sempre



Tendo crescido às voltas com uma família grande, plena de tios e primos, sempre me fascinou a ideia de que amigos, ao contrário de familiares, são escolhas nossas. Cada um deles foi eleito por nós ou nos elegeu para ocupar essa missão, com todo o peso que o título em si  inspira. 

Quando foi a última vez que você precisou de um amigo? Você sabe quem são seus amigos?  A palavra amigo e o conceito amizade parecem tão lugar comum. Mas o fato é que, pelo menos na minha experiência, a gente tende a pensar nos amigos quando precisa deles. Coisa egoísta, eu sei e, claro, não inteiramente verdadeira. Porque, para ser justa, eu sempre penso em meus amigos quando eles precisam de mim, também. Mesmo que eles não peçam ajuda, cresce em mim um senso de responsabilidade, uma espécie de chamada do dever. 

Acontecimentos recentes na minha vida familiar me fizeram voltar ao tema. Nenhuma novidade, eu diria. Uma rápida olhada neste blog já indica que ele me interessa.  Acontece que nos últimos anos tenho me questionado mais e mais sobre os sentidos da amizade e minha capacidade de fazer e reter amigos. Imagino que seja um questionamenteo normal que ganha importância  com o passar do tempo. Vivo uma fase da vida na qual nosso senso crítico nos leva algumas vezes a selecionar com mais cuidado as pessoas em quem queremos investir tempo e com quem desejamos dividir histórias. De novo, mil perdões se isso soa pragmaticamente frio. Como costumo dizer, tenho hoje poucos mas muito amados amigos. Alguns deles, como também já disse aqui, tomaram rumos diversos e eu aprendi nos últimos anos a guardá-los numa constelação especial.  São amigos que eu respeito em nome de um passado compartilhado, mas que ficaram presos neste passado, como uma foto bonita, uma canção. Outros, vão mudando com a gente, o que pode levar a estranhamentos de parte a parte. Eles podem te fazer chorar mas na mesma medida vão chorar por você; vão te dar uma chance antes de te julgar e na maioria das vezes vão estar do teu lado sem nem perguntar o motivo da briga. 

Nessa altura do campeonato, poucos anos antes de completar meio século de existência, eu tenho o benefício de uma certa sensibilidade que me faz aceitar quando alguém não vê em mim uma amiga. Se ao princípio eu me frustrava com isso e ficava tentando ser melhor aos olhos daquele amigo, amiga em potencial, agora me resigno. Parece triste mas na realidade é uma bênção quando um raro amigo te abre as portas nessa tal, especial, fase da vida. Você pode respirar com a certeza de que foi escolhida puramente pelo que você é. Depois da juventude, circunstância desempenha um papel menor e, acredite, é delicioso desfrutar de uma amizade que nasce simplesmente porque temos coisas em comum e porque gostamos de rir juntos. Então vem admiração, compreensão das falhas, e um desejo enorme de que o amigo, amiga seja infinitamente feliz. 

A angústia passa. Pouco a pouco as coisas voltam a ter um ritmo normal, ainda que diferente. E depois de passada a tempestade, a gente vê no meio da bruma quem são os amigos que permanecem. Melhor dizendo, quem são os amigos. Afinal, aqueles que desapareceram ao primeiro trovão provavelmente não eram amigos. Conjecturas...

Dedico estas linhas a todos os amigos que continuam comigo, conosco, atravesssando os temporais.  Com eles vamos ver os dias de sol que hão de vir pela frente.