Sunday, March 17, 2013

Crônicas de bibliotecas

Por um Brasil de leitores!


St Louis Central Library. Recentemente reformada, a biblioteca central de Saint Louis é talvez a mais bonita dentre as muitas bibliotecas espalhadas pela cidade.  É um espaço convidativo e acessível. Foto: Derek Pardue

 



Moro nos EUA há muitos anos e uma das coisas mais legais que já vi aqui é o sistema de bibliotecas públicas. É absolutamente maravilhoso e , lamentavelmente, ao contrário de outras ideias americanas, esta nunca foi amplamente copiada pelo Brasil. Em 2009, a Fundação Getúlio Vargas fez um censo de bibliotecas municipais no país. A pesquisa foi encomendada pelo Ministério da Cultura. Os resultados saíram no ano seguinte e não foram muito animadores. Apurou-se , por exemplo, que 445 municípios brasileiros (8% do total) não tinham bibliotecas públicas. As bibliotecas em funcionamento geralmente não ofereciam outros serviços, ou seja, não promoviam atividades com os leitores nem mesmo grupos de leitura e poucas ofereciam acesso à internet. Mais de 90% delas eram inadequadas para deficientes físicos e/ou visuais. A maioria também fechava aos finais de semana e os horários de atedimento ao público, em geral, inviabilizavam o acesso dos que trabalham em tempo integral.
No mesmo ano, 2010, o Ministério da  Cultura lançou um edital convidando os municípios a se candidatarem a kits de modernização das bibliotecas. Cerca de 200 projetos foram selecionados e agora é hora de se saber como essas políticas de incentivo têm evoluído e como cada município tem tirado vantagem delas, eficazmente.
A criação dos Pontos de Leitura é outra iniciativa interessante e necessária. Grupos como sindicatos, centros comunitários e outros espaços públicos concorrem a verbas federais e infra-estrutura básica, incluindo um acervo inicial de livros de diferentes categorias. Depois de ter bibliotecas em cada município, o ideal seria garantir acesso ao maior número de leitores e transformar esses espaços em parte integrante das comunidades. E que sejam lugares bonitos, acolhedores, dinâmicos.
Eu quero ter esperança. Afinal,  a situação na pátria amada, idolatrada ainda é ruim mas não é novidade. Muitíssimos anos atrás, quando eu era adolescente, tirava livros religiosamente de uma circulante municipal. Eu tinha de renovar ou devolver os livros a cada duas semanas e tentava ler o mais rápido que podia para constantemente ter livros diferentes em mãos.  Um dia, porém, fui informada que houve reformulação dos distritos e com isso eu ficava proibida de continuar retirando livros daquela biblioteca. Há de se notar que a dita biblioteca não ficava no meu bairro. Eu tinha de fazer uma viagem de ônibus de cerca de 25 minutos. Com a tal reestruturação fui encaminhada para uma biblioteca que, apesar de pertencer à minha área, era impraticável. Era totalmente fora de mão: eu teria de tomar dois ônbus e, mais grave, aparentemente acreditava-se que minha jurisdição não tinha muitos leitores porque a biblioteca que nos cabia mal tinha livros e o parco acervo era composto de títulos infantis: uma ofensa para uma adolescente que se julgava tão madura, pelo menos como leitora.Mais recentemente ,lembro de lido que o então prefeito, Kassab, planejava fechar esta mesma biblioteca por falta de leitores (comentei o episódio neste blog).
Voltando ao meu drama adoelscente, não adiantou nada literalmente chorar diante de uma bibliotecária cuja apatia só era superada pelo incrível pendor à burocracia. Eu tinha sido oficialmente excluída. Foi então que pela primeira vez me servi do jeitinho brasileiro, neste caso, felizmente, sem graves consequências para ninguém e com benefícios (temporários) a minha sede de livros. À época, eu tinha um namorado que lia tanto quanto eu e que morava perto da bilbioteca. Ele tinha um irmão que, por sorte (minha não dele), não ligava para livros. Assim não foi difícil convencê-lo a obter uma carteirinha da bilbioteca e gentilmente me permitir usá-la em seu lugar. O acordo durou pelo tempo do namoro, que não foi longo, mas adiou a necessidade de comprar livros por mais um tempo.
Poucos anos depois, já na faculdade, outro evento ligado a bibliotecas me fez pensar na pouca importância que damos a elas no Brasil. Eu estava num desses cursos de ciências sociais com nome complicado. O professor era alguém da USP e embora tivesse boa reputação intelectual era uma dessas figuras antipáticas, caricatura do acadêmico esnobe. Numa das aulas dele, no meu primeiro ano de Jornalismo, quando ele falava sobre  a bibliografia do curso, levantei a mão e perguntei quais eram as opções para quem não pudesse comprar os livros. Inocentemente eu esperava algo como a dica de uma loja de livros usados ou, (por que não?) ser informada sobre os recursos da nossa biblioteca universitária. Em vez disso, Dr. X  foi categórico: “Quem não tem dinheiro para a gasolina não deve comprar carro”. Engoli a metáfora indigesta. Mas sabia que era preciso mais do que uma tirada infeliz pra me fazer desistir. E continuei tocando o carro, mesmo que, às vezes, aos empurrões. Valeu a pena, Dr. X.
Eu me lembrei deste episódio, em 1999, no primeiro ano da pós-graduação em Illinois. Eu me preparava para escrever os trabalhos finais cercada por dezenas de livros emprestados da biblioteca da universidade (tenho uma foto com eles e espero um dia encontrá-la). Eu me sentia como uma criança que realiza o sonho de ter  uma casa cheia de doces. A sensação só era mais intensa quando eu me via nos corredores da própria biblioteca, escolhendo livros das numerosas prateleiras e me deliciando em simplesmente folhear tantos exemplares quanto possível.

Que na nossa corrida para o desenvolvimento a gente crie e equipe muitas bibliotecas. Quem sabe um dia a principal manchete de todos os jornais nos dê conta de que, sim, o Brasil é um país que lê!  E que
não por acaso tem um sistema maravilhoso de bibliotecas públicas.

Monday, December 10, 2012

Quixotes e pixotes


 Diminuição da maioridade penal, sistema prisional e o Projeto Trilhas, 
da Associação Horizontes


Eu tenho um filho de 8 anos. Ele nunca experimentou fome, porque eu ou o pai dele, meu marido, estamos atentos às necessidades que ele tem desde o dia em que ele foi concebido. Ele só sente frio quando teima em sair no inverno sem jaqueta. Mas talvez teime porque saiba que um dos pais vai estar por perto com um casaco quentinho à espera de que ele resolva vesti-lo. Cada vez que sentimos que ele tem um problema na escola, imediatamente entramos em contato com os professores e ao menor sinal de um resfriado mais forte ligamos para a pediatra. Ele nunca teve uma cárie, porque cuidamos dos dentinhos dele desde que surgiram.  Sofreu uma única infecção de ouvido que foi prontamente tratada com o mínimo possível de antibióticos para não desequilibrar seu frágil organismo. Ele é inteligente, sadio, confiante. Ele aprende piano e canta no coral infantil da cidade.  Nossa família não reza nem vai a igreja, mas nosso filho tem um profundo sentimento de respeito pela natureza, pelos animais e por seus semelhantes. É nosso compromisso provê-lo com uma base moral consistente, assim tentamos ser modelo de tudo o que  ensinamos e quando, por algum motivo, erramos, nos desculpamos e mostramos para André que erros acontecem e que pedir e aceitar perdão faz parte da convivência em sociedade. Mesmo com todos os cuidados, nem sempre ele diz obrigado ou por favor, embora em geral tenha boas maneiras. Expandindo essa ideia, imagino que no futuro, quando puder escolher, ele possa, apesar de todos os nossos esforços, fazer más escolhas. Talvez ele se esqueça do que aprendeu, talvez ele se rebele contra nossa forma de educar... Sei lá, é a lei do livre arbítrio e tudo pode acontecer.  O que sei é que quero que ele estude, se eduque, viaje, tente compreender o mundo e seja uma pessoa feliz, um cidadão participante, um ser humano decente.
Difícil mesmo é imaginar como uma criança que foi indesejada, que cresceu sofrendo coisas que nem gente grande está preparada para suportar, num ambiente de violência e privada de cuidados básicos pode se transformar em um adulto saudável e bem integrado ao meio social. Eu estudei um bocado nesta vida mas nunca aprendi muito sobre psicologia, pelo menos não no sentido acadêmico da palavra. Ainda assim, me parece óbvio que uma criança submetida a maus tratos e a desrespeito de todo tipo, que não tenha sequer se alimentado propriamente,  tenha poucas chances de seguir um “bom caminho”.  Isso já é suficiente para me convencer de que mandar um menino delinquente para uma prisão adulta aos 16 anos não vai resolver o problema dele e menos ainda reverter o quadro de violência que assola o Brasil. Ao contrário, vai piorar um sistema prisional já sobrecarregado e corrompido. Um estudo de 2007 dá conta que 90% dos detentos voltam a delinquir e acabam regressando à prisão. Esse dado sozinho mostra a ineficácia alarmante do nosso sistema penitenciário. Dados do mesmo estudo apontam que 95% dos que hoje povoam as prisões são de classes pobres,excluídos sociais, analfabetos ou com baixo nível de instrução. Há um número imenso de presos que aguarda benefícios judiciais a que têm direito, como prisão semi-aberta. Outros estão depositados em distritos policiais sem nenhuma estrutura para recebê-los.  Um dos últimos censos penitenciários revelou que  40% de todos os prisioneiros, sentenciados ou não, estão sob guarda da polícia civil, ou seja, profissionais não treinados para o serviço carcerário, nos DPs da vida.  A transferência desses detentos é prorrogada e em muitos casos jamais concretizada, por falta de leitos nas penitenciárias. Cerca de 20% de todos os prisioneiros  são portadores do vírus da Aids. Revista CEJ  (Rafael Damaceno de Assis, Revista CEJ, Brasília, Ano XI, n. 39, p. 74-78, out./dez. 2007).
Esses números não são os mais recentes , mas duvido que a situação tenha melhorado significativamente nos últimos cinco anos. Os acontecimentos das últimas semanas em São Paulo, em que o crime organizado age de dentro das prisões, nas barbas do poder público estadual e com a sua conivência, apenas atualizam a gravidade e o horror dessa realidade. Parece absurdo imaginar que este sistema carcerário falido possa receber um contingente extra de sentenciados na faixa etária de 16 a 18.  Se isso vier a acontecer, obviamente o caos tende a se expandir e, ainda mais evidente, é a certeza de que qualquer recuperação vai ser vetada a esses adolescentes.
É intrigante como as pessoas, mesmo aquelas razoavelmente bem informadas, tendem a se apegar a explicações simplistas para justificar suas posições diante de questões complexas. É comum, por exemplo, ouvir que a alteração da idade penal intimidaria os jovens criminosos porque  eles pensariam duas vezes antes de um ato ilegal, sabendo que seriam julgados como adultos. Argumento  semelhante aqui nos Estados Unidos, dos partidários da pena de morte, ignora estudos apontando que não há relação comprovada entre a diminuição de crimes violentos nos estados que  executam seus criminosos. Duvido que meninos ou meninas sem estrutura, que sofrem abusos de todo tipo e sem nenhum exemplo de conduta vão deixar de cometer um crime por ponderar  suas consequências legais. Outra ideia batida é a que os adultos deixariam de usar menores  em seus crimes se eles não fossem legalmente tratados  como menores. De fato, não creio que os exploradores de menores estejam preocupados em poupá-los da prisão ou da punição.
Infelizmente,essa lógica passa a prevalecer sobre medidas mais profundas e de múltiplos níveis de abrangência, como por exemplo a necessidade da pressão da sociedade civil organizada sobre  o governo, em todos os níveis, exigindo educação inclusiva e de qualidade e a ação efetiva contra o desfacelamento do núcleo familiar , com a criação de mais programas e atividades para depois do período escolar e de mais espaços públicos seguros na área metropolitana e nos bairros pobres das grandes cidades. Em vez de acoes preventivas e de acompanhamento o que se busca é que o poder público se ocupe  em encarcerar mais jovens, que serão devolvidos às ruas ainda mais violentos.
Em um dos meus contos favoritos de Machado de Assis, “Ideias de Canário”, um canário falante só é capaz de reconhecer o ambiente que o cerca no momento presente. Ele não se lembra dos lugares onde viveu antes e imagina que o mundo não vá além de seu campo de visão. O canário alienado de Machado servia como metáfora para uma outra época e outros problemas, mas como a maioria do que Machado escreveu ainda é curiosamente contemporâneo.  É mais do que hora de a sociedade brasileira passar a enxergar além do muro do seu próprio condomínio, que vai ficando cada vez mais alto e ineficiente, porque o que acontece do lado de fora também é responsabilidade nossa.
Não creio que imaginar uma sociedade em que todas as crianças, como meu filho, tenham direito e acesso a comida, segurança, carinho, proteção integral, física e psicológica, seja quixotesco. Nossos moinhos de vento são tragédias pessoais e comunitárias bem palpáveis. Irreal é acreditar , mais uma vez, que uma medida legal vá convenientemente abolir o problema do menor abandonado.

Horizontes
Mas falando em Quixote, eu por minha vez respeito e admiro esses “quixotes”, profissionais e voluntários, que longe de se iludirem com simplificações criam estratégias de ação social e trabalham por soluções. Entre eles, quero destacar  a Associação Horizontes http://www.ah.org.br/,  uma organização sem fins lucrativos com sede em São Paulo. Eu tomei conhecimento do trabalho desta ONG por meio de minha amiga Heloísa Sousa Dantas, coordenadora de projetos dessa organização e, conhecendo a  Helô,  sabia de cara que o projeto é sério. No dia 14 de dezembro a Horizontes vai promover um bazar, por meio de seu projeto Trilhas, que objetiva levantar fundos para projetos voltados a esses jovens que precisam de apoio efetivo para encontrar um lugar na sociedade. Para que possam, em última instância, levarem vidas produtivas e felizes. Faço um apelo aos que têm espírito natalino ou não a assistirem o vídeo da Horizontes/Trilhas http://www.youtube.com/watch?v=5DCYhM11ZTo e se engajarem  seja contribuindo com dinheiro ( o site diz como se pode doar), com produtos para o bazar ou com a divulgação do trabalho da Horizontes. O primeiro passo é reagir contra a inércia do senso comum, que prefere crer, como o canário machadiano, que ao retirar um problema de seu campo de visão, este automaticamente deixa de existir.

Thursday, November 8, 2012

Amigos...de novo e sempre



Tendo crescido às voltas com uma família grande, plena de tios e primos, sempre me fascinou a ideia de que amigos, ao contrário de familiares, são escolhas nossas. Cada um deles foi eleito por nós ou nos elegeu para ocupar essa missão, com todo o peso que o título em si  inspira. 

Quando foi a última vez que você precisou de um amigo? Você sabe quem são seus amigos?  A palavra amigo e o conceito amizade parecem tão lugar comum. Mas o fato é que, pelo menos na minha experiência, a gente tende a pensar nos amigos quando precisa deles. Coisa egoísta, eu sei e, claro, não inteiramente verdadeira. Porque, para ser justa, eu sempre penso em meus amigos quando eles precisam de mim, também. Mesmo que eles não peçam ajuda, cresce em mim um senso de responsabilidade, uma espécie de chamada do dever. 

Acontecimentos recentes na minha vida familiar me fizeram voltar ao tema. Nenhuma novidade, eu diria. Uma rápida olhada neste blog já indica que ele me interessa.  Acontece que nos últimos anos tenho me questionado mais e mais sobre os sentidos da amizade e minha capacidade de fazer e reter amigos. Imagino que seja um questionamenteo normal que ganha importância  com o passar do tempo. Vivo uma fase da vida na qual nosso senso crítico nos leva algumas vezes a selecionar com mais cuidado as pessoas em quem queremos investir tempo e com quem desejamos dividir histórias. De novo, mil perdões se isso soa pragmaticamente frio. Como costumo dizer, tenho hoje poucos mas muito amados amigos. Alguns deles, como também já disse aqui, tomaram rumos diversos e eu aprendi nos últimos anos a guardá-los numa constelação especial.  São amigos que eu respeito em nome de um passado compartilhado, mas que ficaram presos neste passado, como uma foto bonita, uma canção. Outros, vão mudando com a gente, o que pode levar a estranhamentos de parte a parte. Eles podem te fazer chorar mas na mesma medida vão chorar por você; vão te dar uma chance antes de te julgar e na maioria das vezes vão estar do teu lado sem nem perguntar o motivo da briga. 

Nessa altura do campeonato, poucos anos antes de completar meio século de existência, eu tenho o benefício de uma certa sensibilidade que me faz aceitar quando alguém não vê em mim uma amiga. Se ao princípio eu me frustrava com isso e ficava tentando ser melhor aos olhos daquele amigo, amiga em potencial, agora me resigno. Parece triste mas na realidade é uma bênção quando um raro amigo te abre as portas nessa tal, especial, fase da vida. Você pode respirar com a certeza de que foi escolhida puramente pelo que você é. Depois da juventude, circunstância desempenha um papel menor e, acredite, é delicioso desfrutar de uma amizade que nasce simplesmente porque temos coisas em comum e porque gostamos de rir juntos. Então vem admiração, compreensão das falhas, e um desejo enorme de que o amigo, amiga seja infinitamente feliz. 

A angústia passa. Pouco a pouco as coisas voltam a ter um ritmo normal, ainda que diferente. E depois de passada a tempestade, a gente vê no meio da bruma quem são os amigos que permanecem. Melhor dizendo, quem são os amigos. Afinal, aqueles que desapareceram ao primeiro trovão provavelmente não eram amigos. Conjecturas...

Dedico estas linhas a todos os amigos que continuam comigo, conosco, atravesssando os temporais.  Com eles vamos ver os dias de sol que hão de vir pela frente.

Sunday, June 24, 2012

Alicinha, a nepótica



Minhas introduções aos posts vêm se tornando rotina neste blog e eu me desculpo se parecem excessivas. Simplesmente quero dar um contexto ao texto, quando, a meu ver, se faz necessário. No caso em questão, apenas queria justificar que não foi exatamente minha ideia escrever sobre nepotismo. Este era o tema de um concurso de crônicas do qual eu queria participar. Eu o escrevi muito antes do prazo final do concurso, porque queria tempo para trabalhar nele um tanto, antes de o submeter a julgamentos... Além disso, segundo o regulamento, a crônica tinha de ser minúscula e meu desafio foi cortá-la, cortá-la... Eu fiz isso por semanas, até que a vida me chamou para competições mais urgentes e quando voltei ao texto notei que já tinha perdido o prazo de inscrição. Eu devia ter imaginado que não poderia meramente me esbaldar e relaxar com prazo tão folgado...Banquei a lebre quando estou mais para tartaruga. Por fim, de novo, pra não deixar a iniciativa dormindo nos arquivos do meu computador, decidi publicá-la aqui...e, de vingança, (mil perdões!), a versão original e mais longa. Boa leitura!


Ninguém vai poder dizer que Alicinha não tentou. A pobre hoje anda pela cidade cabisbaixa, óculos escuros que lhe cobrem metade da cara gordinha, bonitinha até. Tudo porque ela foi criada naquela crença meio ingênua meio cristã de que tinha de ajudar a família. Foi assim desde menina. Filha do meio de cinco irmãos, ficava ali meio perdida sem bem ter atenção nem de pai nem de mãe. A madrinha é que às vezes se apiedava dela e levava Alicinha pra passar um dia inteiro no sítio, sem obrigação, só brincando no balanço de pneu velho  que ficava perto do galinheiro. Os puleiros da  madrinha, para alegria da menina, não tinham mau cheiro como os outros.
Quando Alicinha, dedicada colaboradora do centro comunitário, primeiro pensou em se candidatar a vereadora ela nem se lembrou da família. Quer dizer, de verdade, a ideia não foi mesmo dela. Lúcio Rufino veio com a novidade depois de ver como o pessoal gostava de Alicinha. “Você tem penetração popular, menina!”, ele veio dizendo com aquela voz de locutor de rádio. Ela até se espantou com essa definição, que bem podia ser piada do Lúcio Rufino. Ele tinha dessas tiradas que Alicinha se esforçava pra entender, mas quase sempre lhe escapavam. Se tivesse ficado só nisso ela teria certeza que era coisa para não se levar a sério. Só que ele insistiu e começou a espalhar pelo centro que Alicinha daria uma excelente candidata a vereadora e que seria eleita com certeza.
Alicinha nunca tinha sonhado com tanto. Pensava, claro, em ser presidente do centro, afinal já estava na liderança do grupo por tanto tempo. Ela tinha participado de tanta reunião que a mãe dela vivia dizendo que era por isso que não se casava. Bobagem, pensava Alicinha, se foi mesmo numa das reuniões onde ela primeiro viu Marcelo, que foi a paixão da sua vida. Pena que o Marcelo não percebeu a jóia que Alicinha era e acabou casando com a Marieta, do coro da igreja. Todo mundo sabe que ele se arrependeu, apesar de a Marieta ser uma soprano de fazer a gente chorar...
O fato é que Lúcio tinha bom olho pra essas coisas de política. Por influência dele, logo o presidente do centro entrou em contato com um fulano de um partido político desconhecido, que se instalava em Pradinho e que ficou bem feliz em indicar Alicinha. Ela teve de se filiar ao partido e queria usar seu nome completo,  mais digno de figurar na Câmara Municipal: Alice Maria Noronha Gama, que cá pra nós soa importante. Mas os homens lá (sim porque mulher, mesmo, só ela) disseram que deveria usar o nome pelo qual era conhecida e que tinha mais “apelo popular” e pra completar a penetração com o apelo popular, ficou Alicinha mesmo.
Foto: ddpavumba at freedigitalphotos.net
A família dela no princípio riu da candidatura. Mas no fim todo mundo se uniu: irmãos, sobrinhos, tios, primos e primas... Nenhuma campanha foi mais animada em Pradinho e Alicinha comemorou um feito ainda mais importante: foi a segunda vereadora mais votada em toda a história da cidade. Tudo bem que Pradinho virou cidade menos de 50 anos atrás, mas Alicinha não tinha nem 30! Então, claro, motivo pra uma festa de também bater todos os recordes.
Quando tomou posse, pelo menos quarenta pessoas na pequena galeria da câmara eram parentes de Alicinha. Alguns, que nem viviam em Pradinho, foram lá prestigiar o grande momento da “prima”. No primeiro dia despachando no escritório, com a irmã mais nova, Alzira, que tinha sido braço-direito de campanha e agora, por merecimento, era assistente de Alicinha, já era possível perceber que a parentalha não se dispersaria tão fácil. 
Alzira logo informou que Nezinho, o marido dela, tinha se dedicado muito à campanha também, então não teria nada demais contratá-lo para chefe de gabinete. Alicinha não queria magoar Alzira, mas Nezinho nem  tinha terminado o ensino médio e nunca parava em emprego nenhum.  Rodolfo, o irmão mais velho, concordou que a vaga não era pra Nezinho coisa nenhuma. Cargo de confiança para um cunhado vagabundo como ele? Alzira chorou, ameaçou ir embora, mas depois de conversar muito com Rodolfo acabou concordando que ele, sim, daria conta do recado. Ele tinha feito um curso de Contabilidade em Belo Horizonte e enquanto cuidava do caixa do armazém da família, bem que podia ajudar a irmã nessa empreitada. Era quase uma obrigaçãofamiliar, senão cívica. Pelo menos foi isso o que ele disse. Nezinho reclamou e Lúcio Rufino, afinal de contas idealizador da campanha de Alicinha, ficou mais inconformado ainda por não ser ele próprio o chefe de gabinete.  Imagine o prestígio que aquele vozeirão não daria ao mandato de Alicinha.
Foi preciso a ajuda de Alzira e Rodolfo para enfrentar o primeiro conflito. Nezinho acabou sendo empregado como motorista da vereadora Alicinha e Lúcio Rufino, coordenador de comunicação. Como Nezinho  dirigia bem e Lúcio Rufino era super carismático, todo mundo ficou feliz. Quer dizer, quase  todo mundo. Foi assim que uma semana depois a prima Gisele, um doce de menina, que tinha tanto futuro e lindos olhos azuis, foi nomeada recepcionista.  A sobrinha mais velha, Viviane,  ficou encarregada das pesquisas de opinião. E a gente de Pradinho tinha tanta opinião que ela acabou  precisando da ajuda de Valter, seu namorado, que expandiu o setor de pesquisas consideravelmente.
Hoje fica difícil saber exatamente em que momento Alicinha virou nepótica. A mãe dela, em princípio, se horrorizou. Não era nepótica aquela  filha de dona Dalila, que gostava de meninas? Depois de esclarecer a confusão com a mãe e de consultar a palavra nepotismo no google , Alicinha teve de se explicar para um comitê de investigação .
Pobre Alicinha, encerrou o mandato tão promissor  depois de menos de um ano, dois meses , três dias e vinte e oito contratações. Destas, segundo constam nos autos, dezenove só de familiares. Mas no dia da renúncia  a família não apareceu. Nem mesmo Alzira, a assistente, que resolveu marcar manicure bem no horário do discurso, compungido, de despedida da jovem  vereadora.
 Alicinha caminhou também sozinha pra casa, afinal Nezinho não era mais seu motorista. Sorte dela  que a madrinha a esperava no portão de casa, com uma cesta de ovos frescos e uma receita de casadinhos.